Operação da Polícia Federal desmascara a extensa e antiga rede de influência de Ricardo Magro, da Refinaria de Manguinhos, no Estado do Rio de Janeiro
A Polícia Federal (PF) desvendou uma vasta e duradoura teia de influência política orquestrada por Ricardo Magro, proprietário da antiga Refinaria de Manguinhos, localizada no Rio de Janeiro. A investigação aponta para um esquema de fraudes fiscais e a construção de alianças políticas com o objetivo de proteger os interesses do empresário, resultando em uma dívida ativa que atinge a cifra alarmante de R$ 52 bilhões, conforme apurado por O GLOBO.
A operação recente da PF, que alcançou a Refit e o ex-governador Cláudio Castro (PL), ilustra a profundidade da rede de Magro. Considerado pela PF como uma das “mais latentes e exitosas frentes de espoliação do Estado do Rio de Janeiro pela criminalidade organizada nos últimos anos”, o caso destaca a multiplicidade de instituições envolvidas no esquema.
Em quase duas décadas à frente da refinaria, o empresário acumulou uma série de acusações de fraude. As suspeitas incluem elaboradas manobras para evitar o pagamento de ICMS, posicionando seu grupo como o maior devedor de impostos do país. Há também indícios de simulações na refinaria de óleo bruto para pagar menos tributos, quando, na verdade, importava gasolina já pronta, declarando-a em forma mais pura.
Para além das estratégias técnicas, a Refit estabeleceu um robusto sistema de proteção em esferas políticas e diversos órgãos, segundo os levantamentos da PF. No contexto fluminense, os alvos primários da operação foram a Secretaria de Fazenda, sob a gestão do antigo secretário Juliano Pasqual, e a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), durante a administração de Renan Saad.
Ambos os gestores foram exonerados pelo governador interino Ricardo Couto em 29 de abril. Pasqual, cuja nomeação teria sido chancelada por Magro, possui vínculos com a família do ministro aposentado do Tribunal de Contas da União (TCU) Aroldo Cedraz, que já o empregou em seu gabinete como deputado federal. Tiago Cedraz, filho de Aroldo, é advogado e próximo ao dono da Refinaria de Manguinhos. A Secretaria de Fazenda, conforme a PF, transformou-se em uma “extensão da estrutura empresarial do Grupo Refit” sob Pasqual.
Renan Saad, por sua vez, sucedeu Bruno Dubeux na PGE em 2023. Dubeux foi removido do cargo, segundo interlocutores e a própria Polícia Federal, por se recusar a aprovar novas facilidades para a refinaria. Cerca de duas semanas antes da operação, Ricardo Couto reinstaurou Dubeux no posto, que teria sido “escanteado por Cláudio Castro por não se curvar à defesa dos interesses da Refit”.
A Agência Nacional do Petróleo (ANP), outra instituição com a qual Magro mantém conexões, chegou a interditar a Refit em setembro do ano passado por irregularidades. Contudo, a liberação ocorreu apenas um mês depois, com o governo do Rio, por meio da PGE, acionando a Justiça para defender a desinterdição da empresa.
A longevidade da influência e a máfia do combustível
A ingerência política do homem por trás da maior devedora de impostos do país possui raízes profundas. Magro adquiriu Manguinhos em 2008, mas sua atuação prévia como advogado tributário já o inseria no setor por meio de sua relação com distribuidoras de combustível. Entre seus clientes na advocacia, figurou Eduardo Cunha, que posteriormente se tornaria presidente da Câmara.
Movimentações atribuídas a Magro durante o breve governo de Benedita da Silva (PT) no Palácio Guanabara, em 2002, resultaram em um decreto que alterava a forma de cobrança de ICMS, favorecendo esquemas de Manguinhos. Esse modelo foi renovado em 2005, sob Rosinha Garotinho, e gerou embates com Sérgio Cabral, que chegou a desapropriar a empresa em 2012.
Com Manguinhos em dificuldades financeiras, o Grupo Magro adquiriu a refinaria por apenas R$ 7 milhões. Após a aquisição, o petista Marcelo Sereno, ligado ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que fora chefe de gabinete no governo Benedita, assumiu um cargo de chefia no Conselho, consolidando a rede de contatos.
Em 2010, uma investigação da Polícia Civil revelou uma suposta máfia de combustível no estado, concentrada em malabarismos fiscais com distribuidoras, da qual Magro seria uma peça central. O então deputado Eduardo Cunha foi grampeado em ligações de agosto de 2009, prometendo apoio para resolver um problema de Magro com a Braskem, o que levou o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF) devido ao seu envolvimento.
Recentemente, Magro foi visto interagindo em um evento em Nova York com o ex-governador Cláudio Castro, secretários e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), apontado como seu principal interlocutor em Brasília. Nogueira, atualmente envolvido no caso Master, propôs uma emenda que visava isentar empresas de refino de um projeto de combate a devedores contumazes.
No Rio, um projeto de perdão tributário para empresas, aprovado em outubro de 2025 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ficou conhecido entre os opositores como “Lei Ricardo Magro”, em vez de seu nome oficial, “Refis”.
A partir do cerco da Polícia Federal no ano passado, Ricardo Magro emergiu das sombras para os holofotes. Residente nos Estados Unidos, onde desfruta de uma vida de luxo e atua como DJ em seu tempo livre, o empresário chegou a ser pauta em uma conversa bilateral entre Lula e Donald Trump na Casa Branca, evidenciando o alcance de suas atividades.