Estratégias multifacetadas impulsionam esperança em meio ao caos da criminalidade no brasil, apontando para um futuro mais seguro através de ações integradas e foco na raiz econômica das facções
Diante de um panorama nacional de criminalidade complexo e desafiador, com 88 facções atuando em todas as unidades da federação e atingindo 19% da população, conforme levantamento sigiloso da Diretoria de Inteligência Penitenciária (Dipen) da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) do Ministério da Justiça e Segurança Pública e pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil encontra caminhos de sucesso no combate à violência. Iniciativas que combinam valorização da carreira policial, integração robusta das forças de segurança e, principalmente, a asfixia financeira de organizações criminosas têm se mostrado eficazes em estados e operações conjuntas, sinalizando uma luz no fim do túnel.
A descapitalização do crime organizado é peça-chave para a segurança pública, como evidenciado por investigações do Gaeco do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Federal. Operações como Carbono Oculto e Soldi Sporchi revelaram o uso do setor de combustíveis por facções, como o PCC, para lavagem de dinheiro e maximização de lucros via adulterações e fraudes fiscais. Nessas ações, o capital do tráfico financiava a compra de grandes volumes de combustível, vendidos abaixo do preço de custo devido à sonegação de ICMS e adulteração com metanol.
As megaoperações intensificadas entre agosto de 2025 e o início de 2026 alteraram o cenário em São Paulo, com fatias de mercado que estavam em distribuidoras de fachada retornando para empresas tradicionais do setor. Na Carbono Oculto, foram cumpridos mandados contra cerca de 350 alvos, incluindo gestoras de fundos de investimentos, evidenciando a infiltração do crime organizado no mercado financeiro. O Ministério Público informa que o PCC está ligado a uma rede de organizações criminosas para garantir a efetividade de suas atividades ilícitas, inserindo-se na economia formal.
“O sufocamento financeiro das organizações criminosas é a mais importante ferramenta.”
Mais de R$ 1 bilhão de suspeitos foram bloqueados pela Justiça apenas na Carbono Oculto, com o valor total envolvido em lavagem e sonegação fiscal do PCC podendo superar os R$ 50 bilhões. Em janeiro, o Banco Central liquidou a Reag Investimentos, um dos principais alvos da operação. O advogado Evandro Capano, em entrevista à Gazeta do Povo, destaca a importância do sufocamento financeiro e avalia que o aprimoramento dos instrumentos de auditoria e saneamento do mercado financeiro é fundamental. Capano ressalta que a resolução 5.621/25 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que proibiu as ‘contas bolsão’, foi um passo para descontaminar o mercado financeiro, pois esse recurso era usado para ocultar a origem e o dono do dinheiro.
Modelos de sucesso estaduais oferecem estratégias replicáveis
Além das grandes operações, alguns estados se destacam por reduzir a violência. Santa Catarina ocupa a liderança no ranking nacional de segurança pública, registrando 9 homicídios para cada 100 mil habitantes, conforme o Atlas da Violência 2025, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O estado alcançou uma taxa de resolução de homicídios de 77,17% em média nos últimos cinco anos até 2024, índice comparável a países desenvolvidos, contra uma média nacional de 39% em 2022.
Goiás também exibe números positivos, com queda consistente nos índices de criminalidade, registrando 11,27 homicídios por 100 mil habitantes em 2025. O estado se destaca pela alta taxa de resolução de crimes (92%) e pela redução expressiva em roubos de veículos (22%), comércios (34%) e residências (15%). Mais da metade dos municípios goianos (128) não registrou assassinatos em 2024. A violência no estado teve queda de até 97,6% entre 2018 e 2024, segundo balanço da Secretaria de Segurança Pública de Goiás.
Nos exemplos de sucesso de Santa Catarina e Goiás, a valorização da carreira de policial e o investimento na polícia são fatores comuns. O governo de Goiás, por exemplo, investiu R$ 17 bilhões na segurança entre 2019 e 2024. O salário inicial de um soldado da Polícia Militar de Goiás em 2025 era de R$ 7.452,68, com a média remuneratória dos PMs chegando a R$ 13 mil mensais. Na Polícia Civil, os salários iniciais partem de R$ 6.865,56 por mês.
A legislação brasileira tem sido aprimorada para combater as organizações criminosas. O especialista Evandro Capano menciona a lei 15.358/26, conhecida como PL Antifacção, que introduziu o conceito de ‘domínio social estruturado’, positivando em lei uma classificação anteriormente interna para as facções.